4. INTERNACIONAL 30.1.13

1. O DRAGO COSPE FOGO
2. ELAS EM COMBATE
3. O VOTO POR UM PAS NORMAL

1. O DRAGO COSPE FOGO
A China se diz pronta para uma guerra contra o Japo e conclama a populao a se preparar para o pior. Para especialistas, o cenrio  alarmante.

     Um evento que tem baixssimo risco de acontecer, pega a todos de surpresa, vira o mundo de cabea para baixo e que, no fundo, no fundo (diro alguns mais tarde), poderia ter sido previsto  um cisne negro. O termo, aplicado  economia, foi cunhado em 2007 pelo investidor americano Nassim Taleb para explicar o perigo de algum se basear em clculos e previses e deixar de fora do radar a probabilidade de ocorrncias que parecem improvveis. A hiptese da ecloso de uma guerra entre a China e o Japo tem todas as caractersticas de um cisne negro  exceto uma. Ao levar em conta o que a China vem declarando, so altssimas as possibilidades de seus tambores rufarem em breve. Nas ltimas semanas, o Global Times, o jornal oficial do governo, publicou artigos conclamando a populao a se preparar para o pior. Na segunda-feira, Liu Mingfu, um oficial do Exrcito de alta patente, declarou considerar justificvel o uso de armas nucleares contra o Japo em caso de ataque  China. A fala de Liu tinha por objetivo alertar a Austrlia para o fato de que ela no deveria se aliar aos Estados Unidos contra os interesses chineses. Os Estados Unidos so o tigre do mundo, e o Japo  o lobo da sia. E os dois esto agredindo a China sem medir as consequncias. A declarao do oficial seguiu-se  da secretria de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Ela deixou claro que, caso a situao degringole de vez entre a China e o Japo, os americanos optaro pelo segundo. Para o cientista poltico americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group, o cenrio  mais do que alarmante. A crise China-Japo  a mais significativa tenso geopoltica no mapa hoje, afirmou na quarta-feira, em Davos.
A razo oficial da contenda  a disputa pelo controle de oito ilhotas localizadas no Mar da China Oriental e que somam no mais do que 7 quilmetros quadrados. A briga em torno delas  antiga, mas os nimos se acirraram no ano passado, quando o governo do Japo resolveu compr-las de seu ento proprietrio, um cidado japons, como argumento de que, se no o fizesse, elas cairiam nas imprevisveis e ultranacionalistas mos de Shintaro Ishihara  ento governador de Tquio e autodeclarado um idoso fora de controle. Ishihara j havia organizado uma caixinha entre seus apoiadores com vistas a transformar as desabitadas Ilhas Senkaku, como os japoneses as chamam, em territrio administrado e povoado por Tquio quando o governo federal arrematou o arquiplago. A iniciativa foi pessimamente recebida pela China, que acusou o Japo de roubo.
     Numa segunda categoria de razes que justificam a crise, esto os mais de 100 anos de conflitos entre as duas naes e a atual situao poltica de cada uma. Do lado japons, a volta de Shinzo Abe ao poder no ajudou a desanuviar o clima. Eleito primeiro-ministro pela segunda vez, Abe baseou sua campanha na defesa do endurecimento das relaes do Japo com a China. J o ainda inescrutvel Xi Jinping assumir em maro a Presidncia de uma China cada vez mais nacionalista, que busca consolidar sua hegemonia poltica e militar na sia e v no Japo, alm de um inimigo histrico, um entrave para as suas ambies. 
     O Brookings Institution, centro de estudos em Washington, envia aos presidentes americanos alertas peridicos sobre questes geopolticas. Na semana passada, seu principal especialista em China, Cheng Li, endereou ao recm- empossado Barack Obama um memorando em que dizia que ele no deveria subavaliar a possibilidade de a China mergulhar numa revoluo ou lanar-se numa guerra (contra o Japo). Para a economia mundial e a estabilidade na sia, escreveu Cheng, a ocorrncia de uma dessas hipteses pode significar srios apuros. E a combinao das duas, uma catstrofe. Contra os ventos da guerra esto os poderosos fatos de que o Japo  o segundo parceiro comercial da China e os Estados Unidos, o primeiro. So motivos suficientes para tornar essa guerra um evento improvvel. Mas, diante da magnitude do que est em jogo, ningum est disposto a desdenhar do risco.


2. ELAS EM COMBATE
O Pentgono liberou as militares americanas para lutar na linha de frente. Na realidade, elas j participam de operaes arriscadas e extenuantes h anos no Iraque e no Afeganisto.
TATIANA GIANINI

Elas servem, so feridas e morrem ao lado dos outros soldados. Chegou a hora de reconhecer essa realidade. Com essas palavras, o secretrio de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta, anunciou na semana passada o fim da regra, imposta em 1994, que impedia as mulheres de lutar na primeira linha de combate das Foras Armadas. A deciso coloca o pas junto ao pequeno grupo de naes desenvolvidas como Austrlia, Alemanha e Frana que permitem essa prtica (no Brasil, elas no podem ocupar tais funes). Antes da permisso oficial, porm, a presena de mulheres no campo de batalha j era uma realidade. Nas guerras do Iraque e do Afeganisto, quase 1000 militares americanas foram feridas e 152 morreram. Alm de desempenhar tarefas tradicionalmente atribudas s mulheres, como as de enfermeira e cozinheira, que ocupam desde 1775 nas Foras Armadas do pas, um nmero expressivo delas patrulha ruas com metralhadoras e dirige caminhes por estradas minadas. Quando necessrio, assumem funes de artilharia e lideram ataques contra posies inimigas. As militares so indispensveis na tarefa de revistar mulheres iraquianas e afegs, algo que no poderia ser feito por homens, sob o risco de protestos. A verdade  que elas esto em combate desde 2001, e os generais americanos no deveriam ter esperado doze anos para reconhecer essa prtica, disse a VEJA a capit aposentada da Marinha americana Lory Manning, que serviu por 25 anos.
     As mulheres representam 15% do total de 1,4 milho de americanos das Foras Armadas dos EUA. Segundo os defensores do reconhecimento do papel delas na primeira linha, o governo estaria violando seus direitos constitucionais ao impedi-las de participar de determinadas misses. A restrio prejudicava sua ascenso profissional, j que a experincia de combate formal  muito valorizada para alar os altos postos na Fora Area, no Exrcito, na Guarda Costeira, na Marinha e no Corpo de Fuzileiros Navais. Em maio de 2012, duas reservistas do Exrcito americano, a major Jane Baldwin e a coronel Ellen Haring, processaram o Departamento de Defesa e o Exrcito pelo direito de lutar. O Pentgono recusou o pedido meses depois, mas o secretrio de Defesa se comprometeu a examinar a questo novamente.
     O discurso de igualdade de gnero no invalida as diferenas fisiolgicas entre os sexos. Em mdia, as mulheres tm 8% menos massa muscular do que os homens e 11% mais gordura corporal. Os comandos militares tero at 2016 para definir se ainda haver funes inapropriadas para elas. As foras de operaes especiais, como os Seals, da Marinha, e a Fora Delta, do Exrcito, podem demorar para aceitar mulheres por causa dos longos e rduos perodos de avaliao. Para ser um Seal, por exemplo, o candidato precisa nadar 914 metros em menos de vinte minutos, fazer setenta flexes em dois e correr 6,4 quilmetros em menos de 31. H um nmero muito pequeno de mulheres que conseguem cumprir essas exigncias, diz o americano Kingsley Browne, autor do livro O Combate dos Sexos  A Nova Evidncia de que as Mulheres No Devem Lutar nas Guerras da Nao. Mesmo as que obtm nos testes um desempenho equivalente ao dos homens no conseguem mant-lo por muito tempo. Foi o que ocorreu com a fuzileira naval Katie Petronio, que lutou no Iraque e no Afeganisto e terminou com graves problemas de sade causados pelo esforo fsico. Em um artigo escrito em 2012, a capit Petronio lembrou que no h estudos a respeito dos efeitos de seguidas operaes de combate sobre o corpo feminino.
     Em algumas situaes de combate, porm, as diferenas fsicas so menos relevantes. Com os avanos tecnolgicos, as guerras se tornaram mais mecanizadas e menos dependentes da fora bruta. Alm de andarem muito menos a p (a mochila de um integrante da infantaria em ao pesa 50 quilos), os soldados tm sido substitudos nas batalhas pelos drones, os avies no tripulados que j mataram dezenas de militantes da Al Qaeda. Um dos maiores desafios das mulheres ainda  lidar com o assdio. Mais de 3000 casos de agresso sexual foram denunciados em 2011 nas Foras Armadas americanas. Por precauo, elas so aconselhadas a andar em pares. No longo prazo, isso deve ser resolvido com disciplina e profissionalismo. So os mesmos valores que permitiram derrubar o veto aos homossexuais, disse a VEJA o coronel aposentado do Exrcito Peter Mansoor, que foi comandante de brigada em Bagd, entre 2003 e 2004, e teve mulheres em sua unidade. Elas serviram honrosamente em vrias tarefas e foram cruciais para encontrar muulmanas que estavam prestes a cometer crimes, diz Mansoor.


3. O VOTO POR UM PAS NORMAL
O avano de dois novos partidos, um de centro e o outro de extrema direita, nas eleies israelenses, foi movido mais por questes internas do que pelo conflito com os rabes.
NATHLIA WATKINS

     A anormalidade marca o dia a dia dos israelenses. Tudo  diferente do padro em um pas cercado por inimigos, que separa rabes e judeus com um muro de 8 metros de altura e cuja populao enfrenta o risco permanente de ser atacada por foguetes e atentados suicidas. No enclave democrtico no conturbado Oriente Mdio, nem as categorias polticas usuais tm definies semelhantes s do resto do mundo. Em Israel, centro, esquerda e direita no so conceitos relacionados  economia, e sim  posio favorvel ou contrria ao processo de paz que culminaria na criao de um estado palestino. Nas eleies da semana passada, que deram o terceiro mandato ao premi Benjamin Netanyahu, os eleitores deixaram a poltica externa de lado e focaram o desejo de normalidade. Eles votaram por uma agenda domstica que praticamente ignora o crescente isolamento de Israel no cenrio internacional, a bomba atmica iraniana ou o futuro dos vizinhos palestinos. O pleito resultou na ascenso de dois novos movimentos que obrigaro Netanyahu a rever sua agenda de governo e se contorcer para montar, nas prximas semanas, um governo de coalizo to confortvel quanto o que possui hoje com seus aliados naturais, que inclui partidos de direita e de judeus ultraortodoxos.
     Com a maior participao de eleitores em uma dcada, os israelenses deram impressionantes dezenove das 120 cadeiras no Parlamento ao estreante Yair Lapid e seu recm-criado partido de centro, Yesh Atid (H Futuro, em hebraico). O resultado contrariou todas as previses de que um fortalecido governo de direita reinaria por mais quatro anos e transformou Lapid, carismtico ex-ncora do principal telejornal do pas, no representante da segunda maior fora poltica nacional. Surpreendeu tambm o ultranacionalista religioso Naftali Bennett, cujo recm-fundado partido, HaBayit Hayehudi (Lar Judaico), conquistou doze vagas. Nas relaes com os palestinos, Bennett defende os colonos judeus e a anexao de territrios ocupados. Lapid  mais moderado. Ele concorda com a soluo de dois estados, um judeu e outro rabe, convivendo lado a lado, mas nem pensa em ceder a metade oriental de Jerusalm, como reivindicam os palestinos. Em comum, Bennett e Lapid tm o vigor das novas lideranas, grande apelo popular e uma boa dose de pragmatismo para lidar com os problemas internos que tanto preocupam a classe mdia israelense. A economia e alguns temas muito especficos da sociedade judaica, e no a paz com os palestinos, foram o verdadeiro foco da campanha.
     Ao lado do Partido Trabalhista, que cresceu e conquistou o terceiro lugar, com quinze assentos no Parlamento, Lapid foi um dos principais defensores das reivindicaes dos protestos sociais que tomaram as ruas de Tel-Aviv em 2011 contra o elevado custo de vida no pas. A proposta mais conhecida de Lapid toca em uma antiga e latente ferida da democracia israelense, o servio militar compulsrio. Atualmente, essa obrigao abrange todos os cidados, com exceo dos judeus ortodoxos e dos rabes-israelenses, justamente as fatias da populao que mais crescem. Enquanto os ortodoxos ganham subsdios estatais para passar a vida estudando nos seminrios religiosos, so os laicos que se ocupam em doar dois anos, no caso das mulheres, ou trs, no dos homens, ao servio militar. Entre os rabes-israelenses, o alistamento  voluntrio, e apenas algumas centenas o fazem anualmente. Os privilgios concedidos aos judeus religiosos e a falta de oportunidades para os rabes-israelenses tambm fazem com que esses grupos populacionais contribuam pouco com a arrecadao de impostos. O estado mantm um complexo sistema de educao pblica, seguro-desemprego e outros benefcios que so os pilares de Israel desde sua fundao, em 1948, quando predominava o sistema de kibutzim, as fazendas coletivas. Com tudo isso, cada vez menos cidados precisam sustentar mais pessoas, diz o cientista poltico Dan Avnon, da Universidade Hebraica de Jerusalm. A guinada ao centro, em seu aspecto econmico,  gradual e contnua entre os eleitores. Pesquisas de opinio realizadas nos ltimos quinze anos mostram que mesmo os judeus religiosos, porm no ortodoxos, votam cada vez mais em partidos com propostas de economia liberal. Eles veem a alta taxa de natalidade entre os que no trabalham e ficam indignados por ter de sustent-los.
     As diferenas entre as correntes que emergiram do pleito so enormes, mas no irreconciliveis. Vistas de perto, parecem mais nuances. O religioso Bennett, de 40 anos, foi major na Sayeret Matkal, uma das principais divises de elite do Exrcito israelense. J Lapid, de 49 anos, tem o rabino Shai Piron como seu nmero 2. Lapid fez um de seus principais discursos de campanha no assentamento de Anel, no corao dos territrios ocupados.
     A variedade da fauna poltica israelense traduz-se na quantidade de partidos. Os pouco mais de 7 milhes de habitantes esto representados por 34 legendas. Para participar da vida poltica, vale tudo. Em 2009, em uma das mais bizarras combinaes, sobreviventes do Holocausto em busca de melhores condies sociais uniram-se ao partido de defensores da legalizao da maconha. Uma vez eleitos, sionistas e antissionistas, religiosos, ortodoxos e ultraortodoxos, asquenazes e sefarditas, imigrantes da Rssia e da Etipia, laicos e ateus, rabes-israelenses e judeus defensores dos rabes, para citar apenas algumas das correntes, formam as mais improvveis coalizes, em busca de uma base de governo vivel que promova seus interesses. Exatamente por essa anormalidade da poltica israelense, o novo mandato de Netanyahu no poder ser um dj vu do anterior. Ele ter de formar uma ampla coalizo para responder aos anseios de um pas que busca a normalidade.


